Porque o diploma é uma bobagem ?
Por que o diploma é uma bobagem
O universitário brasileiro não gosta de ler jornais e livros, rejeita as atividades extracurriculares e estuda pouco – menos de cinco horas por semana. Apenas 28% dos futuros médicos, por exemplo, lêem um único livro não escolar durante o ano; os demais nem isso. Só 40% dos estudantes de direito, administração e economia consultam diariamente o jornal. A média para todos os cursos é de 23%. Coletados pelo Ministério da Educação com os alunos que fizeram o Provão, esses dados sobre os hábitos culturais são tão ou mais importantes do que as notas dos cursos. Esse buraco cultural é devastador.
A pesquisa confia na palavra dos entrevistados. Uma investigação mais rigorosa encontraria números piores. Já foram feitos testes com adolescentes que se diziam leitores. Constatou-se que muitos não tinham o hábito de folhear o jornal: ler significava, para eles, dar uma passada de olhos. Se considerarmos o tipo de assunto que interessa ao leitor habitual do jornal ou a qualidade do livro, vamos ver que o desastre é mais profundo.
É quase impossível alguém progredir, de fato, profissionalmente se não tem o hábito de leitura constante de jornais, livros e revistas. Meios eletrônicos como a TV por melhores que sejam os programas, não permitem o aprofundamento da informação. A construção do conhecimento exige a palavra impressa.
Por melhor que seja a faculdade, o diploma se torna uma bobagem se o aluno pára de estudar e deixa de fazer pesquisa por conta própria. É no prazer da pesquisa que se estabelece a diferença entre quem quebra a cara e quem prospera. O novo conceito de analfabetismo inclui o domínio da informática, particularmente da lnternet, e mesmo de uma língua estrangeira.
A era da informação é a era da aprendizagem permanente. A velocidade do conhecimento obriga à atualização constante. Tanto assim que as empresas investem cada vez mais na reciclagem de seus empregados. Empresas de grande porte montam suas próprias faculdades, motivadas pela pressa da competição. Numa tentativa de acompanhar a evolução do mercado de trabalho, as universidades se abrem a cursos de menor duração. Explodem os cursos de educação continuada para pessoas que, há muito tempo, deixaram os bancos escolares, muitas delas favorecidas pelas novas tecnologias que permitem o ensino a distância. Tudo isso porque, quando chega ao final do curso, o aluno sente um mal-estar, a sensação de que não está apto para enfrentar a realidade - e isso, em geral, se confirma logo no estágio. Muitas vezes, porque os professores estão longe da prática e os currículos estão empoeirados, servem apenas para suprir um ritual acadêmico.
O diploma, portanto, é um detalhe na carreira. O prestígio do trabalhador vai depender das experiências acumuladas e sistematizadas nas escolas e nos vários empregos e funções. A inutilidade do culto ao diploma fica nítida quando são entrevistados profissionais de recursos humanos das grandes empresas. Eles pedem cada vez menos conhecimento técnico e mais flexibilidade, criatividade, capacidade de trabalhar em grupo. Até mesmo a intuição passa a ser valorizada. Está por baixo aquele indivíduo que aprendeu a decorar, saindo-se bem nos testes. A hipercompetição globalizada exige pessoa inovadora, capaz de aprender sempre, e criativa, que encontra novas soluções para novos problemas.
Essa demanda do mercado mostra que os dados do Provão têm, a rigor, pouca importância para medir o desempenho profissional dos estudantes. Mostra, ainda mais, a inutilidade do culto ao vestibular, que obriga adolescentes de quinze anos a escolher, na marra, uma carreira - na prática, um crime contra quem ainda não conhece seus dons e a evolução das carreiras.
O diploma é uma bobagem, assim como a escola, como a conhecemos. Porque a educação é a coleção de vivências, convivências, leituras, experimentações e observações. É, portanto, muito mais do que a sala de aula. Por isso, e só por isso, sai na frente da corrida quem vem de família com maior bagagem cultural, que patrocina aos filhos viagens, museus, teatros, debates em casa, livros.
Gilberto Dimensten, O Brasil na ponta da língua. São Paulo, Ática, 2002.
APRENDER A APRENDER
Há todo um saber necessário para poder aprender a aprender. Isso só se torna possível para quem já aprendeu muito sobre muita coisa. Alguém pode aprender por si mesmo quando já sabe o suficiente para, primeiro, reconhecer o que merece ser aprendido, depois construir estratégias, a partir do que já sabe, para alcançar novos conhecimentos. Mas o fundamental é desenvolver a capacidade de estabelecer relações inteligentes entre os dados, as informações e os conhecimentos já construídos.
Os rumos que nossa sociedade está tomando indicam claramente que, para ser capaz de aprender permanentemente, a bagagem básica necessária hoje é acadêmico-cultural, em que se articulam conhecimentos de origem tradicionalmente escolar e relacionados aos movimentos culturais da sociedade. Torna-se cada vez mais comum perguntar a alguém que quer um cargo executivo numa empresa se gosta de literatura, se vai ao teatro, ao cinema, se ouve música, se tem um olhar informado em relação às artes plásticas, se conhece línguas. Mesmo que esta pessoa esteja lá para tratar do movimento de capitais ou das fibras ópticas.
Nessa perspectiva, a escola hoje tem uma tripla função: levar os alunos a aprender a aprender, dar-lhes os fundamentos acadêmicos e, sem perda de tempo, equalizar as enormes diferenças no repertório de conhecimentos com que eles chegam. É hora de começar a pensar, com maior profundidade, como agir para democratizar, de fato, o acesso à informação e às possibilidades de construção do conhecimento.
Extraído de: Telma Weisz, O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. São Paulo, Ática, 1999.
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